Voltamos à Idade Média

Há quem diga que voltamos à Idade Média, no que se refere somente aos seus aspectos negativos, como as invasões, guerras, adversidades e caça às bruxas. Convivemos com a ansiedade, estresse, comportamentos aflorados, egoísmo, materialismo, desequilíbrios emocionais e aumento das doenças psicossomáticas.

A violência está banalizada, convivemos com atitudes preconceituosas e até tragédias, como feminicídios, atentados e suicídios divulgados amplamente pela mídia e Internet de forma explícita.

Nos casos das chacinas que ocorreram há pouco, precisamos de cautela para não atenuar o crime hediondo responsabilizando somente os jogos agressivos de videogames e o bullying. Nestes casos tratam-se de mentes criminosas e doentias. Não existe um assassino que não seja um psicopata.

A Organização Mundial da Saúde constatou outra consequência da conjuntura atual: a epidemia de ansiedade que assola a população. O Brasil é o campeão mundial do problema: quase 10% da população possui algum tipo de transtorno de ansiedade, três vezes mais que o restante do mundo. E no caso de grandes metrópoles, como a cidade de São Paulo, os casos chegam a 20% dos seus moradores.

A ansiedade e o medo estão diretamente ligados. O medo é provocado por um estímulo imediato como, por exemplo, a presença de um cão raivoso, enquanto que a ansiedade nasce de um problema futuro que pode ou não ser real. Os transtornos de ansiedade ocorrem quando o córtex pré-frontal, parte do cérebro responsável pela consciência, não informa à amígdala que um determinado estímulo deixou de ser um perigo. A amígdala, área do cérebro ligada ao medo, é hiperestimulada e propicia o aumento do hormônio cortisol, gerando estresse, intolerância, incerteza, comportamento de fuga e supervalorização das ameaças.

Este cenário não foi causado pelas instituições de ensino, mas estas podem ser as protagonistas na retomada do rumo em busca de uma sociedade mais homogênea, equilibrada e feliz. As estratégias necessárias não tornarão as pessoas dóceis de uma hora para outra. Incutir atitudes positivas no lugar de agressivas requer energia e empenho.

A escola nada mais é que um ecossistema formado por vários públicos como colaboradores, pais e alunos que se interagem simultaneamente e possuem um objetivo em comum: ensinar e aprender. O aluno indolente é resultado de famílias e professores desequilibrados, potencializados por líderes agressivos e ansiosos.

Segundo uma pesquisa realizada com 3300 famílias de escolas parceiras da Rabbit, as consequências desta situação são claramente percebidas quando os pais são indagados com a pergunta: O que você considera mais importante para a educação do seu filho?

Os líderes e colaboradores também precisam desenvolver sua inteligência emocional. É importante municiá-los com cursos de apoio periódicos e uma estrutura social saudável para que possam lidar com assuntos polêmicos com segurança e desenvoltura. Muitas vezes, a escola se esquiva de temáticas controversas com medo de se expor e perder alunos.

A importância da comunicação: A mudança ocorrerá a partir do nosso trato diário com as outras pessoas. O problema não está no conflito em si, mas na sua má gestão que pode propiciar situações de agressividade. O diálogo é uma ferramenta imprescindível para alcançar um resultado positivo.

Arun Gandhi, neto de Mahatma Gandhi e fundador do seu instituto enunciou: “O mundo em que vivemos é aquilo que fazemos dele. Se hoje é impiedoso, foi porque nossas atitudes o tornaram assim. Se mudarmos a nós mesmos, poderemos mudar o mundo, e essa mudança começará por nossa linguagem”. Seguem algumas sugestões de como utilizar a comunicação:

  • Definir e divulgar de forma clara para colaboradores, famílias e alunos um conjunto de regras de convivência e as consequências para os infratores.
  • O envolvimento dos pais é decisivo para enfrentar os problemas vistos anteriormente. Este tema precisa estar presente em reuniões, palestras e eventos.
  • Criar iniciativas que promovam a amizade e solidariedade nos alunos como, por exemplo, a inclusão, o auxílio de alunos mais novos por alunos mais velhos, projetos sociais, supervisão no recreio por parte dos adultos, atividades que permitam ocupar os alunos nos intervalos etc.
  • Horário do ócio – Colaboradores e alunos precisam de um horário para repor as energias físicas e mentais. O descanso facilita a consolidação memorial, melhora a criatividade e o humor. Não ocupe as aulas vagas dos professores com outros afazeres.
  • Convidar os pais para uma conversa pessoal ou efetuar uma ligação gera melhores resultados que conversar pelo WhatsApp.
  • Ajudar os alunos com dificuldades sociais e emocionais, que agem de forma indisciplinada, bem como aqueles que são vítimas dos colegas.Em seu livro “Comunicação não-violenta”, Marshall. B. Rosenberg – PHD em psicologia, apresenta algumas técnicas para aprimorar os relacionamentos pessoais e profissionais.
  • Evitar o julgamento – Vivemos em um ambiente dicotômico, esquerda e direita, certo e errado, bem e mal. Tais argumentos aparecem em frases polarizadas como: “Você nunca faz o que eu quero” ou “Ela falta demais”.
    O poeta Rumi, jurista e teólogo persa do século XIII, proferiu: “Para além das ideias de certo e errado, existe um campo. Eu me encontrarei com você lá”.
    Ao julgar conseguimos somente distanciar as pessoas. Ao invés de generalizar é preciso nos concentrar no ato em si como: “Nas últimas três semanas você atrasou os projetos.” e “Ela comprometeu o planejamento mensal ao faltar quatro vezes este mês”.

Outro ponto importante é abordado no livro “Como enlouquecer você mesmo: o poder do pensamento negativo”, Dan Greenburg, que retrata com humor os malefícios do pensamento comparativo. Ele sugere que se você estiver com o desejo de tornar sua vida infeliz deve aprender a se comparar a outras pessoas. Duas iniciativas contribuirão para enriquecer o conteúdo até aqui apresentado:

  • O Projeto Cuca Legal (www.cucalegal.org.br) ligado à UNIFESP visa à promoção da saúde mental e prevenção de transtornos mentais em ambientes de ensino, através do desenvolvimento de programas de intervenção baseados em evidências científicas.
    Em 2015, um marco para a história do Cuca Legal foi o lançamento do livro “Saúde Mental na Escola: o que os educadores devem saber”, organizado pelos psiquiatras Gustavo M. Estanislau e Rodrigo A. Bressan.
  • O Teen Mental Health (www.teenmentalhealth.org) é um grupo canadense de referência mundial no campo do desenvolvimento de intervenções, material e pesquisa com enfoque na transferência de conhecimentos em saúde mental. Liderado pelo Dr. Stanley Kutcher, um dos maiores experts na área, o Teen Mental Health conta com projetos no Canadá, Estados Unidos, Portugal e em países do continente africano e asiático.

CEO Grupo Rabbit
Christian Rocha Coelho

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